terça-feira, 31 de julho de 2007

E LA NAVE VA!: "Ei, cozinha e embrulha pra viagem!"

O importante não é o pepino, é saber lidar com o pepino. Saber cortar, cozinhar e ter inteligência e calma para trabalhar o pepino.”
José Carlos Pereira, quando presidente da Infraero, sobre a crise aérea.

Parece que, enquanto o brigadeiro José Carlos cozinhava o pepino, a batata dele assou.”
José Carlos Aleluia, deputado.

Sei que até eu mereceria uns tomates por retomar algo que já virou uma salada na internet ( é só digitar pepino cozido no google), mas o caráter, como diria um nada saudoso ministro, “incozível” do vegetal supracitado pelos senhores ilustres do governo já evidencia que estão despreparados para o paladar brasileiro, embora estejam em confluência com a degustação de iguarias de outras culturas.

Mas ok. Tudo bem. Você aí, brasileiro, defina três itens da cultura popular genuinamente brasileira, e verá que tupiniquim come qualquer coisa. A fome é brava.
Não é um chuchu de país se o olharmos assim, mas há alguns ainda acreditam que basta sorrir e seguir em frente que é sopa no mel, o país ainda dá um caldo.

Apesar da buchada indigesta vir de administrações de cheffs pregressos, de escolas culinárias diferentes mas adeptos de um mesmo cheiro verde, o problema chega finalmente à ala do restaurante que ainda não tinha ares de boteco, aquela de quem já há algum tempo, come mortadela e arrota peru.

Muitas pessoas encaram o sururu do atendimento em hospitais públicos com mais que uma mosca na sopa todos os dias, várias outras não sabem ao menos ler o cardápio de seu direitos constitucionais, e ficarão até o fim de suas vidas sem saber o paladar da holográfica liberdade de expressão que o fato de ser alfabetizado projeta para quem é mais que funcional. Engolem a seco a própria sombra de existência ao lidar com uma vida que não oferece a mínima organização de segurança para degustar seu ir e vir, apesar de pagar o pato carbonizado com combustível de jato que arde nos impostos inaplicados devidamente.
Grãos apodrecem em armazéns para não quebrar o mercado que não encontra quem os compre, as melhores carnes e frutas são do tipo exportação e alimentam o exterior com “polpa” e circunstância. As coisas estão escondidas por trás de receitas como na ditadura; apostilas para mastigar o que cérebros desdentados desde cedo não aceitam como alimento e línguas afiadas para falar daquilo que não sabem, de si mesmos, e de um perfil de cidadania nacional, uma identidade sem identificação ou reles paradigma.

Daí achar curioso que ( vinheta clássica nada irônica: pan pan pan paaaaaaannn!!) a classe média alta (se é que isso existe ainda) esteja sobressaltada com o abacaxi aéreo, que para o governo, que não é bobo, toma o avatar suave de pepino, pois assim fica mais aerodinâmico e não tem espinhos. Mas quando não se sabe o que fazer com ele, pensa-se em cozinhar, e pepino pequeno, pelo que me contaram, até é cozinhado para por em conserva.

Resta aos que comem nas nuvens com freqüência acreditar ou não se esse pepino com o tempo será conservado e lembrado de vez em quando, na ocasião de acidentes domésticos aleatórios, porém previsíveis. Resta a eles olhar para baixo mais vezes e procurar rastros do governo que governa governos, ou estabelecer a metáfora de que daqui de cima parece tudo de brinquedo, parecemos todos formigas. Claro, infestando um bolo que não é nosso.

Só fico imaginando o que se passa na cabeça do Joãozinho e da Mariazinha que todos os dias encaram sururus e pagam patos impostos e nunca experimentarão um grão de arroz da classe mais econômica sequer. Assim em cima como embaixo. Uma realidade oposta, distante. Há o que não me atinge, mas há o que me esmaga. E sabores e palavras que muitas línguas vivas ou mortas, de gente viva ou morta, jamais vão conhecer.

E mais uma vez, embora espere que não, o problema convertido em objeto fálico será empurrado para baixo, nas mãos da turba que não terá muitas opções para onde enfiar essa coisa, uma vez que o tapete é voador e debaixo dele já tem muita porcaria, inclusive a vida minimamente significante da própria turba.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Toda Jornada

Toda jornada é um descortinar do espírito, caminho para a eterna reconstrução do ser? O caráter ôntico de minhas retinas torna-se acentuado a cada dia neste mês. A fenomenologia, uma das modalidades acadêmicas para a filosofia e a linguagem no último século, deve ser, lá no fundo, uma das culpadas. Ou a leitura em demasia do Juliano Garcia Pessanha, que anos atrás olhou para mim e disse algo que eu já sabia a meu respeito e que ainda não consegui alcançar no cotidiano.
Essa figura, uma das melhores surpresas que já tive na Literatura, desmontou um monte de coisas que o mundo já havia imposto à minha percepção. Mas foram suas palavras mediadas pela voz, e não pelos excelentes textos escritos, que soçobraram de vez o entendimento do, parafraseando Moska, falso de mim.
Ontem, como no esforço de um paraplégico naqueles filmes de superação habitantes do Supercine, acordei e ao sair para comprar o miojo de talharim no supermercado não pude deixar de observar a miríade de realidades na qual nos encontramos, representada por esta série de simulacros e possibilidades infinitas dentro de cada canto de jardim, de cada folha emancipada pelas árvores, em cada ser humano, completo estranho para mim, mas tão próximo na angústia de existir. Acho que quem não sente esta angústia neste mundo deve ter seus motivos, da obscura arcanna ao medo de “não ser mais feliz”.
E é isso que estou fazendo, quer dizer, tentando fazer a cada passo. Olhar o mundo com toda a potencialidade que ainda desconheço em meu espírito. Ser mais distante do ser construído pelas regras mundanas e alcançar um estado de liberdade interior. O bom é que a idade traz o discernimento de que não é preciso esfregar na cara de todo mundo as poucas conquistas neste campo.
A vida como jornada; algo a se pensar. Percorrer ciclos, algo muito bacana para os hamsters até eles enjoarem. A palavra jornada vem do provençal homônimo, possivelmente derivada de jorn, que significa dia, em confluência com o latim diurnum, fazendo com que o ouvinte a entendesse como “aquilo que se faz durante o dia”. De acordo com Deonísio da Silva, em A vida íntima das palavras, o vocábulo passou a ser um termo para a designação de marchas de batalhões ( por isso todo o filme de guerras perpetradas por cavaleiros em distantes reinos tem aquela fala inigualável: “Acamparemos aqui esta noite!” ). Deonísio ainda diz que a jornada ganhou outro sentido com a industrialização. A jornada de trabalho.
Este assunto ainda vai longe aqui na Miríade, na recorrência típica de infinito vezes infinito. Mas fica aqui a reflexão e até mesmo o convite para comentários e opiniões de vós e de voz, leitores. Das jornadas míticas, das jornadas dos grandes poemas épicos construtores da imaginação e da cultura das nações, das jornadas cheias de glória tanto quanto de torpeza pelas causas mais santas e sanguinárias na Idade Média à jornada do herói cotidiano que simula ser alguém em paraísos e infernos artificiais. Foi a palavra quem perdeu seu carpe diem ou o homem quem desaprendeu a ler a vida?

terça-feira, 24 de julho de 2007

"À guisa de padrões sociais" ou "Os uéucomes necessários"







Embora não pretenda demorar ( pois, com o perdão do aparente chiste, tenho que alimentar um quelônio aquático na casa de minha "amante"), simples desejos de boas vindas não fariam jus ao momento. Vá lá: agradeço seu olhar e o diamante precioso que é o fato de você gastar sua energia psíquica na leitura de meus escritos neste mesmo instante. Mas como tenho observado, a literatura dos blogs à qual somo forças neste dia tem seu caráter profundamente ligado à crônica e à partilha de olhares. Uma tarefa dantesca, eu diria, nestes tempos insólitos.
Ontem mesmo saí de uma palestra interessante sobre a Fraternidade Branca com a premissa de aliar assuntos como os Mestres Ascensionados com a física quântica, e é perfeitamente possível, uma vez que esta tecnologia chamada palavra permite que possamos estabelecer contato, interpretação e superinterpretação entre tudo, nada e, quem sabe, mais um pouco. Borges e Eco que me perdoem, mas as bibliotecas infinitas e as associações infinitas tendem muitas vezes à coisa alguma.
Não estou dizendo escrevendo um monte de coisas ao léu. De repente até estou, mas no momento acho que não, pois há essa luta de fazer o mínimo sentido pra você. Não estou criticando a natureza da palestra. Tenho estudado o que dá pra estudar na grande e incentivada arca de publicações científicas que é o sistema acadêmico brasileiro e trabalhado (agora mais lento do que outrora) na associação do quantum com a Arte, mais precisamente a literatura ou qualquer veículo de contar histórias. Não lidava faz tempo é com esta parte dos saberes cósmicos da outra metade da palestra que renderá um post futuro do tipo pero que las hay, hay! .
Ocorre contar é a dicotomia entre a pergunta de uma espectadora e a postura do palestrante e de grande parte dos terapeutas holísticos avessos à Freud: a postura do Foda-se! sem ser ególatra, apesar de tudo freudiana, ainda que em sua superfície semântica. A espectadora levantou seu braço num ângulo de setenta e seis graus de acordo com a latitude da sala em função do trópico de Capricórnio e perguntou se o palestrante poderia descrever de modo cartesiano como é que ele transita entre a 3ª e a 4ª dimensão.
Sim, eu achei que ela era a velhinha de Donnie Darko e senti um laivo de esperança em ler aquele livro sobre viagens no tempo.
E sim, esta é a parte que difere de qualquer alusão à Seinfeld que você possa ter suscitado no afã da síndrome da Obra Aberta, ao ler a frase que está abaixo do nome deste blog. A intenção do autor dessa página é falar das coisas que supostamente ele gosta e supostamente domina, e discutir aquilo que teoricamente entende ao olhar para os "fatos" do mundo. No entanto, sempre haverá a possibilidade de escrever qualquer porcaria que vier à telha, tais como discorrer sobre a noite passada em lugar de simplesmente dizer welcome.
Acredite ou não, o palestrante deu a única resposta que poderia oferecer acerca da necessidade de materializar conceitos tão distantes até mesmo de abstrações, de um modo que até Stephen Hawking possivelmente o faria: Não dá.
É impossível explicar Tudo. É impossível explicar nada. Pois tudo está distante tal qual a onisciência está de nossa posse, e nada é explicável quando as palavras que ouvimos possuem o crivo seletivo e maniqueísta de nossas mentes abertas e repletas de amor descompromissado...
Assim sendo, bem-vindo. A Miríade alberga tudo e tudo está fora dela.
Bem-vindo pela primeira vez a um lugar do qual você jamais saiu enquanto nunca esteve.