sexta-feira, 27 de julho de 2007

Toda Jornada

Toda jornada é um descortinar do espírito, caminho para a eterna reconstrução do ser? O caráter ôntico de minhas retinas torna-se acentuado a cada dia neste mês. A fenomenologia, uma das modalidades acadêmicas para a filosofia e a linguagem no último século, deve ser, lá no fundo, uma das culpadas. Ou a leitura em demasia do Juliano Garcia Pessanha, que anos atrás olhou para mim e disse algo que eu já sabia a meu respeito e que ainda não consegui alcançar no cotidiano.
Essa figura, uma das melhores surpresas que já tive na Literatura, desmontou um monte de coisas que o mundo já havia imposto à minha percepção. Mas foram suas palavras mediadas pela voz, e não pelos excelentes textos escritos, que soçobraram de vez o entendimento do, parafraseando Moska, falso de mim.
Ontem, como no esforço de um paraplégico naqueles filmes de superação habitantes do Supercine, acordei e ao sair para comprar o miojo de talharim no supermercado não pude deixar de observar a miríade de realidades na qual nos encontramos, representada por esta série de simulacros e possibilidades infinitas dentro de cada canto de jardim, de cada folha emancipada pelas árvores, em cada ser humano, completo estranho para mim, mas tão próximo na angústia de existir. Acho que quem não sente esta angústia neste mundo deve ter seus motivos, da obscura arcanna ao medo de “não ser mais feliz”.
E é isso que estou fazendo, quer dizer, tentando fazer a cada passo. Olhar o mundo com toda a potencialidade que ainda desconheço em meu espírito. Ser mais distante do ser construído pelas regras mundanas e alcançar um estado de liberdade interior. O bom é que a idade traz o discernimento de que não é preciso esfregar na cara de todo mundo as poucas conquistas neste campo.
A vida como jornada; algo a se pensar. Percorrer ciclos, algo muito bacana para os hamsters até eles enjoarem. A palavra jornada vem do provençal homônimo, possivelmente derivada de jorn, que significa dia, em confluência com o latim diurnum, fazendo com que o ouvinte a entendesse como “aquilo que se faz durante o dia”. De acordo com Deonísio da Silva, em A vida íntima das palavras, o vocábulo passou a ser um termo para a designação de marchas de batalhões ( por isso todo o filme de guerras perpetradas por cavaleiros em distantes reinos tem aquela fala inigualável: “Acamparemos aqui esta noite!” ). Deonísio ainda diz que a jornada ganhou outro sentido com a industrialização. A jornada de trabalho.
Este assunto ainda vai longe aqui na Miríade, na recorrência típica de infinito vezes infinito. Mas fica aqui a reflexão e até mesmo o convite para comentários e opiniões de vós e de voz, leitores. Das jornadas míticas, das jornadas dos grandes poemas épicos construtores da imaginação e da cultura das nações, das jornadas cheias de glória tanto quanto de torpeza pelas causas mais santas e sanguinárias na Idade Média à jornada do herói cotidiano que simula ser alguém em paraísos e infernos artificiais. Foi a palavra quem perdeu seu carpe diem ou o homem quem desaprendeu a ler a vida?

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