Acabo de terminar a leitura de mais um encadernado de histórias do famoso e fabuloso quadrinho chamado Sandman. Nesta última encadernação, intitulada “Fim dos Mundos”, acompanhamos personagens de diversas histórias, da literatura, da mitologia, dos recônditos da mente prolífica de Neil Gaiman, num verdadeiro aleph em forma de uma estalagem, cuja estadia é paga com o contar de uma história. Então os personagens se revezam, como em Chaucer. E é impossível não lembrar de “Noite na Taverna”, subestimado pelos adolescentes que ao invés de leitores são pré-vestibulandos, e lêem qualquer história ou aprendem histórias da carochinha em livros de história com carimbo acadêmico como que autômatos e não pássaros ao sabor não antecipado do beijo das lufadas. Não comparo com Chaucer ou mesmo Gaiman, pois não se deve comparar histórias quando elas são uma moeda em troca do vinho que aquece a alma quando se sente perdida entre estranhos.
A história de "Fim dos Mundos" narra este lugar nenhum por onde todos os lugares se encontram, independentemente de tempo e espaço, e as probabilidades mais inesperadas são a de praxe, aquelas raras chances de encontro e aprendizado que assombram os dias de tédio e ordenada, feliz, e inconsciente tristeza de não estar vivendo, só shopping and fucking.
Mas eu senti algo mais em relação aos personagens, e acho que as pessoas todas sentem isso nestas ocasiões. Eu tenho certeza disso, por mais que alguém venha a negar. Pois se alguém negar, é porque não está desperto, ou em acordo com os sonhos que todos sonham juntos quando acordam dessa realidade construída a sete palmos de si mesmos, de sete corpos enterrados e mutilados no lixão da percepção de si.
Uma das histórias prediletas tem o nome de um livro de Dickens, “Um conto de duas cidades”. Eu a considero estarrecedora além de um exemplo de que a literatura cosmopolita ou de origem urbana que possui profundidade é aquela que entende as invenções do homem como construtos que possuem uma consciência própria; essa é uma opção até benévola, para não enfatizar a possível vergonha de que a espécie sapiente na qual estou inserido é inteligente ao ponto de ser sobrepujada intelectualmente pelas próprias ferramentas que criou. Mas não vou contar a história. Sandman merece ser lido e ponto final. É grandiosamente complexa de tão humana esta obra.
Podemos encontrar reflexões parecidas sobre nosso ambiente urbano em coisas mais leves como Marvel Boy de Grant Morrison, que traz um conceito sobre a mídia simplesmente genial em meio a um “simples” quadrinho de super-herói, em Do Inferno e A Voz do Fogo de Alan Moore, nas obras de Beatriz Sarlo, que me foi apresentada pelo professor Sérgio Montero Aguiar, e ao lembrar desta figura não posso ignorar que a obra de Joyce foi a célula matter moderna para um fluxo de consciência que é cada vez mais reflexo do caldo polifônico (ou esquizofrênico) de infinitos mundos que morrem e nascem a cada olhar de cada ser humano ou quiçá dos vegetais.
Essa questão dos mundos que morrem é algo caro para mim. Creio ser louco pois não existem loucos como gente sã pensa, pois gente sã é uma mentira contada no mundo de mentira inventado para barrar a sensibilidade dos loucos. As pessoas ouvem vozes porque a mente é um labirinto fatal que ecoa a voz calada de cada instante que não desabrocha, que não vem à tona em expressão ou na partilha da consciência de havermos percebido aquilo que faz sentido além de meus credos fabricados.
Este foi um ano de percorrer estradas já trilhadas, cujo asfalto se fez entender por constância e insistência. Aqui não é seu lugar, diz o chão.
Por isso acordo em torpor todos os dias. Têm me salvado andar de bicicleta nos últimos dias, procurando ruas e vendo estabelecimentos que não sabia que existiam com a proximidade de dois quarteirões até. Onde estava aquela agência de correio? Já existiam aquelas casas perto do porto? Porque parece mais bonito pedalar olhando o mar na Ponta da Praia? E porque lamentar que estas coisas estejam longe de quem ocupa seu tempo com um trabalho estipulado em horas, em microcosmos de escritório e me sentir culpado ao mesmo tempo que em débito comigo por não me permitir caminhar na areia numa terça à tarde se minha alma precisar?
É terrível acordar nos últimos meses e num átimo reviver uma série de imagens que me ferem: a hipocrisia e o poder mesquinho das pessoas que regem os micro-universo nos quais trabalhei, a falsidade e mediocridade de diversos e aclamados profissionais da educação que possuem egos maiores que a Via-Láctea, crianças rotas em sala de aula, muitas com berço de ouro e família de merda, e poucas com família de merda e cabeça de ouro, entre outras com um tanto significativo de coisas que não servem nem para adubo jogando cartas em uma aula inútil de literatura (afinal, pra quê literatura, não é?) e outras donzelas em sono profundo no canto da sala, cuja desculpa são os remédios tarja preta que as pobrezinhas tomam para suportarem a vida terrível de baladas regadas a uma carreirinha de cocaína ou outra. Será que consigo me exorcizar, me livrar dos fantasmas de batalhas cujo sangue em que chafurdei vaza de corpos de valores e morais fabricados por uma elite imoral e uma massa ignorante que os perpetuam?
Este sangue que não tem cor e não existe pois vem de maravilhas que deveríamos ser e contemplar, coisas que não existem pois não existe aborto de idéias, mas um vazio antítese da própria existência que se espalha na inutilidade de percorrer este caminho pré-programado a que chamamos de vida real.
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